sábado, 29 de outubro de 2011

Sobrevivendo aos Escândalos

Prisões e processos afetam captação do Opportunity, mas a gestão continua relevante no mercado.

No final dos anos 70, o então presidente do BNDES Marcos Viana enfrentou a fúria de estudantes de esquerda durante uma palestra na Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio sobre os projetos do banco. Entre os críticos mais inflamados estava o estudante Dório Ferman, que assistiu à defesa de Viana ao Projeto da  Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que seria criada em 1983. “Ele mostrou por A mais B que o projeto era bom, pela localização estratégica para obtenção de matérias-prima e para exportação”, lembra Dório. A argumentação ficou na cabeça dele por 12 anos. Em 1992, quando Dório Ferman já era administrador de clubes de investimentos, começou a comprar ações da CST (hoje Arcelor) vendidas pelos funcionários da empresa. Dório chegou a aplicar 60% do patrimônio que geria CST. O preço médio de compra foi de R$6,00 e os papéis acabaram sendo vendidos por R$12,00. “Mas foi a palestra que serviu de base para irmos atrás do negócio”, diz.

Esse é o estilo de Dório, gestor de recursos respeitado e um dos principais executivos do grupo Opportunity. Há muitos anos a sua estratégia é estudar uma empresa a fundo, definir o preço justo e esperar uma oportunidade para uma compra. Fundador e principal executivo do Banco Opportunity, sua fama de seriedade ajudou a gestora de recursos a reter uma parte razoável do dinheiro sob administração, apesar de todas as confusões envolvendo Daniel Dantas.

Em meio ao furação da crise internacional, Dório, junto com Daniel Dantas, foi alvo da Operação  Satiagraha, da Polícia Federal, que levou à sua prisão e à de nove diretores do Banco em 7 de julho do ano passado. Dório concordou em falar com a Valor Investe sobre o assunto e, pela primeira vez, posar para uma foto de reportagem.
“Não tirava fotos por questão de segurança, mas agora, com essa confusão toda, resolvi aceitar”, diz.

Apesar das crises de imagem, o Opportunity continua sendo um player na gestão de recursos. Está em 16º lugar no ranking geral de gestoras, administrando R$14,7 bilhões em maio, dos quais R$10 bilhões estão aplicados em ações. As prisões de Dório e Dantas afetaram a gestora, que chegou a perder R$2,5 bilhões (15% do patrimônio anterior de R$16 bilhões) em poucas semanas. Parte dos investidores voltou depois do auge da crise. Excluindo apenas as gestoras de grandes bancos de varejo. O Opportunity ocupa o sétimo lugar no ranking de gestores independentes.

Dório conheceu Daniel Dantas ainda como calouro do mestrado da FGV, em 1980. “Apliquei o trote no Daniel, que entrou depois de mim”, lembra. Dantas tornou-se o preferido de Mário Henrique Simonsen, que o classificava como um dos mais brilhante economista do país. Enquanto o amigo seguia  sua carreira, primeiro no Bradesco, depois no Banco Icatu, Dório abriu uma distribuidora e administrava carteiras de ações. “Comprei a carta-patente em 1980, do Brigadeiro Rui Moreira Lima”, lembra Dório, com orgulho. Combatente na segunda guerra, o Brigadeiro foi cassado no regime militar. Dório ainda conversa com Moreira Lima, hoje com 90 anos.

Dório e Dantas mantiveram contato desde a universidade. “Eu ia assistir as palestras do Simonsen no Icatu, participava de reunião do banco e trocava idéia com Dantas e Braguinha (Antônio Carlos de Almeida Braga, um dos maiores investidores em bolsa dos anos 80, que fundou o Icatu), até que em 1993 surgiu a proposta de montar o Opportunity”, conta. Dório diz que Dantas nunca foi sócio diretor do banco Opportunity, embora controlasse os fundos private equity e gestoras. Dantas usou essas empresas para dar grandes tacadas nos leilões de privatização de telecomunicações.

Com mandato das fundações e do Citibank e usando uma complexa rede de holdings, Dantas exerceu o controle na operadora de telefonia fixa Brasil Telecom e em diversas empresas de telefonia celular. Em todas as suas parcerias, disputas societárias subseqüentes renderam centenas de ações judiciais em todo  mundo e lances dignos de filmes de espionagem. Alguns processos ainda se arrastam. Enquanto a Polícia Federal e os processos judiciais tratam Dantas como controlador do grupo, Dório reintera que a única ligação de Dantas com o Opportunity é a administração de fundos e sua amizade.

Todos trabalham no mesmo andar, apesar da separação das áreas,mas conversam, segundo ele, “sobre tudo”. Dório afirma dever a Dantas muitas análises que renderam bons frutos ao fundo de investimentos Lógica II, uma das carteiras mais antigas do país, criada em 1986,hoje com patrimônio de R$2,3 bilhões. Uma das decisões foi aposta em telefonia no início dos anos 90.
A prisão foi uma experiência traumática para Dório, aos 64 anos, hipertenso e diabético, e para os outros diretores. Todos foram presos em casa e levados, algemados, de camburão, para a sede da PF no Rio, onde passaram por um revista “constrangedora e desnecessária”, descreve. Depois de um voo para São Paulo, mais uma viagem de camburão até a sede da PF. Os executivos ficaram presos por duas noites. “Foi um experiência horrível, indescritível, me marcou muito, fiquei uma semana apavorado”, desabafa, atribuindo o episódio a uma perseguição pessoal do delegado Protógenes Queiroz, hoje afastado.

Dório nega as acusações da Polícia contra a gestora, que incluem lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta. “Somos inocentes, o que ocorreu foi um crime contra o estado de direito, uma  monstruosidade”.

Segundo Dório, em 25 anos ele nunca teve um processo do Banco Central. “São apresentadas mentiras à população, que depois é usada para justificar as ações como se fosse o clamor das ruas pela punição aos ricos”, afirma Dório. “Mas a voz das ruas pode ser manipulada, como aconteceu tantas vezes na história”.

Dório compara de maneira velada o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, muito criticado por ordenar a soltura dos executivos do Opportunity, ao oficial da Aeronaútica Sérgio Macaco, considerado um herói por impedir um atentado orquestrado pela ditadura militar. Não foi a primeira vez que o Opportunity foi alvo de investigações. Em 2004, policiais federais da Operação Chacal apreenderam computadores e documentos da gestora, que na época também perdeu 15% de seu patrimônio. Durante o período mais recente das prisões, o comando ficou com a equipe formada por Dório, que já vinha delegando algumas tarefas.

Uma das estrelas da equipe do Opportunity é Afonso Bevilacqua, ex-diretor de Política Econômica do BC e que se tornou sócio do Opportunity em agosto de 2008.

Bevilacqua, considerado o “Falcão-Mor” dentro do Comitê de Política monetária (Copom) por sua defesa intransigente dos juros altos contra a inflação e pela formação de reserva internacionais elevadas, acrescentou uma dose extra de controvérsia à gestora. Apesar de polêmico enquanto esteve no BC, Bevilacqua foi vigiado durante a crise, quando as altas reserva internacionais ajudaram o país a atravessar o pior da instabilidade nos mercados. Dório divide com ele a linha mestra de estratégias dos fundos do Opportunity. “Daniel dá uns pitacos e Bevilacqua participa muito das decisões”, diz. “Bevilacqua era nosso consultor desde 1998, quando o Pérsio Arida saiu”. Dório foi à posse de Bevilacqua em 2003 e o recontratou logo que ele deixou o BC, depois de um período de quarentena.

Além da equipe que continuou no dia a dia das operações, Dório diz que o apoio do BNY Mellon foi fundamental para evitar perdas de recursos. A gestora assumiu a administração das carteiras que era feita pelo banco Opportunity.

“Isso deu mais transparência e ajudou a acalmar os investidores”. O grupo decidiu, com isso, fechar o banco Opportunity, que não é mais necessário para a administração das carteiras. Mas não passa pela cabeça de Dório se desfazer da marca Opportunity, “Temos orgulho dela, é nosso patrimônio”.

O Lógica II é o fundo mais querido de Dório. Aberto como clube de investimentos em março de 1986, em pleno Plano cruzado, foi transformado em fundo em 1996 e rendeu no período 121,874%, bem acima do 1,116% do Ibovespa. Com esse retorno, quem aplicou R$ 1 mil na criação do fundo teria hoje R$1,2 milhões.

Em 2009, o Lógica teve desempenho ligeiramente abaixo do Ibovespa até maio. O fundo ganhou muito com a OGX, de Eike Batista, e com a Petrobras, mas perdeu com a Gerdau a com a Vale. Em Petrobras, especificamente, o portifólio antecipou a forte alta após a descoberta de grandes volumes de petóleo na camada pré-sal. “A gente acompanhava todos os relatórios da Galp (empresa portuguesa de petróleo), da British Gas, e quando saiu a confirmação da Petrobras estávamos seguros do que estávamos fazendo”, lembra. “E vendemos direitinho depois, antes da queda”. O Opportunity está confiante na perspectiva da OGX, empresa ainda não operacional crida pelo empresário Eike Batista  para a prospecção de petróleo. Pouco depois do IPO, relatório da corretora Merrill Lynch concluía que as ações da companhia não valiam R$900. Hoje os papéis estão cotados a mais de R$1 mil, Em Gerdau e Vale, Dório acredita que, acredita que apesar das perdas recentes, ainda haverá uma recuperação no longo prazo, e por isso aumentou a posição.

Dório lembra de outros grandes negócios que marcaram a história do Lógica II. Uma foi a compra de grandes lotes de ordinárias da Vale, que estavam cotadas por um terço o valor das preferenciais devido a uma conversão de debêntures, e aquisições semelhantes de ordinárias da Petrobras “Como havia limite para comprar, criamos várias subsidiárias abertas para poder ter várias vezes limite para comprar”, lembra.

Nos anos 90, antes da privatização, Dório adquiriu ações de empresas de telecomunicações, por causa da previsão de melhora no setor. Ele lembra que a Telerj, do Rio, vendeu uma posição gigantesca da Telesp antes da privatização. “Foi tudo assim, como a história da CST, de estudar todas as informações relevantes e lembrar mesmo do que ocorreu 12 anos antes”, diz. Seu maior defeito como gestor, admite, é demorar para vender. “Tenho muita coragem para comprar, mas muita resistência para vender, o que nem sempre é bom, pois o prejuízo pode aumentar”, comenta. “Mas estou tentando aprender depois de velho, preciso me educar”.

Filho de um judeu ucraniano que fugiu do regime do regime soviético imigrando para o Brasil, Dório foi criado no Recife. Seu pai foi joalheiro, representou a Rolex no Nordeste e depois criou uma incorporadora de imóveis. Dório formou-se em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco em 1967, mas já saiu da faculdade arriscando a sorte na bolsa, aplicando recursos do pai e de conhecidos. “Nunca gostei de intermediação, de corretagem sempre fui gestor”, diz. O dinheiro era aplicado em arbitragens entre os preços das ações nas bolsas de São Paulo, Rio e do Recife. Em 1976, Dório mudou-se para o Rio e, em 1979, foi fazer o mestrado em economia na FGV. Nesse meio tempo, continuava gerindo recursos de terceiros, até comprar a patente em 1980. Seus primeiros clubes de investimentos tinham suas iniciais: DF1, DF2 e DF3.

Casado com uma médica oncologista, Dório tem dois filhos, ambos concluindo o Ph.D, em economia, um plena London School of Economics e o outro pelo Massachussentts Institute of Tecnology (MIT). “Pela minha educação judaica, aprendi a valorizar muito o estudo”, afirma. O executivo preside a Congregação judaica do Brasil há três anos e financia obras sociais na comunidade. Dório elogia, no mercado, os gestores da Ático e Polo Capital. Mas, para ele, o melhor de todos é Luís Stuhlberger, do CS Hedging- Griffo, criador do Verde, o maior fundo multimercado do país, para obter retornos com volatilidade e riscos mais baixos. “Uma ves eu quis imitá-lo, e aí surgiu o fundo Midi, há seis anos”, conta Dório. A tentativa de criar um produto de baixo risco foi, porém, um desastre. “Deu tudo errado!” Ele então transformou o fundo em um carteira que ele considera sua “cozinha experimental”, utilizando alavancagem. A carteira chega a registrar oscilações diárias superiores a 10%. Dório convenceu-se de que só tem jeito para administrar riscos altos e perspectivas de longo prazo.

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