Bruce Kovner, é um trader que privilegia o mercado cambial (FOREX) para as suas transações e é daí que advêm cerca de 60% dos seus lucros. Aliás, na altura da realização da entrevista do autor do livro, Kovner era talvez o maior “player” neste mercado (exceptuando os bancos, claro). No ano de 1997, conseguiu obter lucros de 300 milhões de dólares e entre 1978 e 1998 o retorno médio anual dos fundos por si geridos ascendeu a 87%. Quem em 1978 tivesse investido 2 mil dólares no seu fundo, teria, passados 10 anos, cerca de 1 milhão de dólares.
Mas como se interessou Kovner pelo “trading”? Após obter a licenciatura em Harvard, começou uma carreira de professor, mas depressa se apercebeu que não era aquilo que queria fazer para o resto da sua vida. Afirma com alguma ironia “Não gostava do processo de ter de confrontar uma página em branco todas as manhãs e pensar em alguma coisa brilhante para escrever”. Após desistir da carreira académico interessou-se por política, mas também rapidamente abandonou essa ideia pois não estava “disposto a começar por baixo”. Em meados dos anos 70 começou a interessar-se nos mercados financeiros e deu particular atenção ao estudo da curva de rendibilidade (“yield curve” *).
Assim, depois de um intensivo ano de estudo dos mercados financeiros da leitura de muitos livros, Kovner começou a transaccionar. Os seus três primeiros negócios consistiram na aplicação da teoria sobre mercados de futuros e do aproveitamento de diferenças de preços entre contratos sobre o mesmo activo com prazos de expiração diferentes. Assim, para aproveitar essas ligeiras anomalias comprou um “spread” ** de taxa de juro (comprar um contrato de futuros da taxa de juro e vender um contrato de taxa de juro com um prazo de expiração posterior). A sua segunda transacção também foi idêntica, comprou um contrato de futuros do cobre com expiração mais próxima e vendeu o contrato de futuros do cobre com data de expiração num mês posterior. No final destas duas transacções a sua conta tinha subido de 3,000 para 4,000 dólares. A sua transacção seguinte tratou-se de outra compra de um “spread” de soja em 1977. Nessa altura estava a desenvolver-se uma aparente escassez no mercado da soja pois a cada semana que passava o “crush” (processamento da soja de forma a fazer óleo e refeição) era maior e ficava sempre acima das estimativas, ou seja, os consumos de soja eram mais elevados. Na altura, Bruce Kovner observava o “spread” entre os contratos de Julho e os de Novembro e comprou um “spread” (comprou um contrato de Julho e vendeu um de Novembro). O raciocínio foi: “Como vai deixar de haver soja no mercado, o prémio do “spread” (diferença entre a subida do preço do contrato de Julho e a subida do preço do contrato de Novembro) vai aumentar”. O seu raciocínio acabou por se revelar completamente correcto e o prémio do spread começou a aumentar. À medida que tal sucedia, Bruce Kovner continuou a aumentar a sua posição (“pyramiding”), comprando mais “spreads”. A certa altura, a posição já ascendia a 15 contratos (30, pois quinze eram vendedores e quinze eram compradores). Desde o primeiro “spread” aberto a 25 de Fevereiro até ao último a 12 de Abril, a conta deste trader subiu de 4,000 dólares para 35,000 dólares, virtualmente sem risco absolutamente nenhum. Nesta altura o leitor deve estar a questionar-se: “Mas se o mercado estava em alta porque é que ele mantinha as posições curtas nos contratos de Novembro abertas? Se fechasse essas posições curtas poderia ganhar muito mais!” Foi precisamente isto que o corretor que processava as suas ordens na altura disse a Bruce Kovner ao ver que o preço da soja continuava a subir. No dia 13 de Abril convencido pelo seu corretor, Kovner cobre todas as suas posições curtas no contrato de Novembro. Muitos depois, o mercado estava a transaccionar “limit-down” e o trader, desperado por ver diminuir um saldo positivo de 45 mil dólares para 22 mil dólares em poucos minutos, decide fechar as posições longas nos contratos de Julho. Apesar de ter subido o seu saldo de 4 mil dólares para 22 mil dólares, Kovner não conseguiu dormir nem comer durante largos dias, não pelo dinheiro que deiou de ganhar, mas sim pelo facto de ter reagido de uma forma primária, exactamente oposta aquela a que se tinha proposto aquando da sua entrada no mercado. Um pouco surpreendentemente, o entrevistado afirma que pensava ter destruído a sua carreira de “trader” e que ao mesmo tempo esta transacção foi a pior transacção de toda a sua carreira (em termos psicológicos), apesar de ter multiplicado por 5.5 o seu capital inicial.
Desta transacção Kovner retirou um dos príncipios pelos quais sempre regeu a sua carreira: “Nunca te deixes apanhar numa situação em podes perder muito dinheiro por razões que não compreendes ou desconheces.” “Quando me vejo numa dessas situações encerro as minhas posições”, acrescenta e dá o exemplo do dia 19 de Outubro de 1987 (altura de um dos mais famosos “crashes” da história), quando decidiu encerrar todas as suas posições (quer perdedoras, quer vendedoras).
Depois da transacção em soja, o entrevistado esteve um mês sem transaccionar, afastado do mercado e poucos meses depois o saldo da sua conta já ascendia a 40 mil dólares. Por essa altura candidatou-se a um emprego na Commodities Corporation, tendo sido entrevistado por Michael Marcus (o primeiro entrevistado do livro), que lhe ensinou duas coisas
muito importantes: “É possível ganhar um milhão de dólares” e “É preciso estar disposto a cometer erros regularmente”. Conseguiu o emprego e começou a transaccionar futuros com um saldo inicial de 35 mil dólares.
* relação entre a rendibilidade de uma obrigação (do tesouro, por exemplo) e o tempo que falta para a sua maturidade.
** Imaginemos a seguinte transação:
Compra de um contrato de futuros de “light sweet crude” na NYMEX com expiração em Novembro a 20.15 dólares e vende um contrato de futuros do petróleo da NYMEX com expiração em Dezembro por 20.90 dólares. Imagine agora que a cotação dos futuros de Novembro sobe para 20.30 dólares e a cotação dos futuros de Dezembro sobe apenas para os 21.00 dólares. Na posição longa coseguir-se-á obter um lucro de 150 dólares (0.15×1000). No entanto, na posição curta (a do contrato com expiração em Dezembro, o prejuízo será de apenas 100 dólares (0.1×1000). Assim com uma posição com risco reduzido obtém-se um lucro de 50 dólares. Claro que se se tivesse apenas comprado o contrato de expiração em Novembro, ganhar-se-iam mais 100 dólares, mas a posição seria mais arriscada e mais cara, já que a compra de um “intramarket spread” paga uma margem consideravelmente menor do que uma posição líquida apenas longa ou apenas curta.
Quando questionado sobre quais as características de um bom “trader”, Bruce Kovner afirma que este deve ser independente, capaz de assumir posições que outros não estão dispostos a assumir, disciplinados, e nunca, mas nunca gananciosos, ou seja, que nunca transaccionem posições muito grandes (mais arriscadas). Para além disto, considera que um trader nunca deve personalizar as suas perdas. O único ano em que registou uma desvalorização no fundo que gere foi o de 1981 (perdeu 16%), o primeiro ano em que «me vi confrontado com um “bear market” em commodities», afirma, acrescentando que as principais causas do seu falhanço nesse ano foram a imprecisão no “timing” de fecho e abertura de posições e a abertura de muitas posições correlacionadas ***. Isto porque um “bear market” se caracteriza pela quebra acentuada das cotações intermediada por rápidas e efémeras retracções “bullish”. “Vendia sempre tarde de mais” (…) Num “bear market” temos de usar as retracções “bullish” para entrar curto no mercado.”
Uma das partes mais interessantes da entrevista ocorre quando Schwagger questiona o entrevistador sobre o tipo de análise que utiliza. Kovner afirma que utiliza muito análise técnica, mas que não consegue manter uma posição aberta se não achar que existe uma razão fundamental para o mercado se mover em determinada direcção. Compara um fundamentalista que não presta atenção ao gráfico de determinado título para tomar as suas decisões de investimento a um médico que não faz um diagnóstico de um doente antes de lhe receitar um medicamento.
Um exemplo da utilização da análise técnica que o entrevistado dá é o facto de seguir sempre um “breakout” que acontece após um período de consolidação ou congestionamento, mesmo que não exista qualquer explicação para o mesmo. Age assim porque pensa que a direcção primária do mercado é sempre a correcta. Aliás, Kovner afirma que um “breakout” em consequência de uma notícia publicada num jornal é, quase sempre, menos fiável do que um que aconteça sem qualquer explicação.
Tal como Michael Marcus (ver primeira entrevista), Bruce Kovner afirma que sempre que abre determinada posição tem pré-estabelecida uma “stop loss”. O tamanho da posição que abre é determinada pela “stop”, que por sua vez, é determinada pela análise técnica. A colocação da “stop” de protecção é sempre efectuada para lá de alguma barreira técnica (suporte ou resistência). Ao mesmo tempo é necessário pensar num valor suficientemente afastado do preço de mercado de forma a que os “floor traders” não consigam lá chegar facilmente. A razão de ser deste “modus operandi” é “Coloca a tua stop de protecção num ponto que caso seja atingido te indique com poucas margens para dúvidas que a tua ideia está errada e não pela quantia máxima que estás disposto a perder”. Devido aos elevados volumes que transacciona, as suas “stop loss” não estão no mercado mas antes é encarregue uma pessoa para accionar a ordem caso o preço chegue ao valor pré-definido.
No momento em que a entrevista a Bruce Kovner foi realizada (fim de 1989) a quantia que este geria ascendia a sensivelmente 650 milhões de dólares, mas como acreditava muito pouco nos sistemas de trading, apenas alocava 5% deste montante a este tipo de ferramenta. Kovner pensa que no que ao trading diz respeito, a melhor performance da máquina nunca vai ultrapassar a melhor performance do homem.
Apesar de existirem muitas vantagens de se gerir mais dinheiro, em muitos aspectos torna-se mais complicado. Um destes é o facto de existirem alguns mercados que se tornam virtualmente impossíveis de transaccionar devido à reduzida liquidez, como o cobre e o café, isto apesar de serem extremamente voláteis e atractivos. Por isso, este é da opinião que os melhores mercados são o cambial, o de taxas de juro e o de petróleo, pois a liquidez acaba por não ser problema. O mercado cambial é mesmo a sua maior fonte de lucros (entre 50% e 60% do lucro total). Kovner enumera as vantagens de transaccionar no MMI (Mercado Monetário Interbancário – tem a possibilidade de experimentar transaccionar neste mercado em “fxgame.oanda.com”): enorme liquidez, custos de transacção reduzidos e transacção 24 horas por dia.
No que diz respeito ao mercado accionista, este experimentado trader considera que há nuances importantes face ao mercado de futuros de mercadorias. Existem mais movimentos de curto prazo contra a tendência no mercado accionista enquanto que os mercados de commodities são guiados pela procura de bens físicos e quando existe escassez desses bens a tendência de alta não falha. Assim, torna-se muito mais complicado apanhar a tendência de longo prazo.
Para finalizar, o entrevistador perguntou a Bruce Kovner quais eram os conselhos que daria a alguém que quisesse começar a transaccionar. O entrevistado respondeu: “Qualquer que seja o tamanho da posição que acha que deve abrir, corte-a pelo menos para metade” e acrescentou “Não personalizem o mercado”. Com o primeiro conselho Kovner quer alertar para o facto de uma dos factores mais importantes para se ter sucesso no mercado é estar muito tempo no mercado. Quanto mais pequena for cada aposta, maior é probabilidade de se sobreviver para ver o dia seguinte. O segundo conselho chama a atenção para os traders que se vêem muitas vezes a pensar para consigo “Só espero que…”. Quando isto acontece é sinal de que o trader está a entrar num processo destrutivo pois está a descurar um dos aspectos mais importantes: o diagnóstico e a procura de novas oportunidades de negócios.
*** A correlação mede a ligação entre dois pares de dados. Se se abrem duas posições em mercados extremamente correlacionadas (o coeficiente de correlação é um valor muito perto de 1), como por exemplo comprar contratos de futuros de milho e de trigo, será natural que o resultado nas duas transacções seja idêntica (ou se perde nos dois ou se ganha nos dois), ou seja, na realidade só estamos a aplicar uma ideia de “trading” e o risco é maior.
Nenhum comentário:
Postar um comentário